Skip to main content
PUBLIC RELEASE DATE: 14h00, horrio de Nova York, Quinta-feira 14 de julho de 2005

Seqüências genômicas de parasita oferecem possibilidades de novos fármacos e vacinas, afirmam estudos na revista científica Science

Doenças negligenciadas recebem atenção de cientistas de genomas

Um grupo de cientistas seqenciou e comparou o genoma de trs parasitas responsveis pela doena do sono, doena de Chagas e leishmaniose, trs doenas devastadoras que ocorrem nos pases em desenvolvimento.

De acordo com uma nova pesquisa publicada na edio de 15 de julho de 2005 da Science, revista cientfica editada pela AAAS (sociedade cientfica sem fins lucrativos), todos os anos milhes de pessoas adoecem e morrem devido a esses parasitas e novas seqncias de genomas proporcionam informaes essenciais para os fabricantes de frmacos e vacinas.

Alm de conferir uma orientao ao desenvolvimento de medicamentos e vacinas, a pesquisa fornece um esquema detalhado da biologia e evoluo desses organismos unicelulares ou protozorios da famlia Tripanosomatidae, que parasitam o homem e outros mamferos, aves, rpteis, peixes, insetos e plantas. Os insetos transmitem os parasitas, vetores de doenas que afetam a sade humana nas regies tropicais e subtropicais do mundo.

Os cientistas identificaram cerca de 6.200 genes comuns aos trs parasitas, posicionados em ordem similar em cada um dos genomas. Algumas das protenas codificadas nesses genes poderiam servir de alvo para frmacos eficientes contra todos os trs parasitas, um objetivo louvvel, levando-se em conta que atualmente no h vacinas para essas doenas. Existem apenas alguns poucos medicamentos, mas a maioria deles no adequada devido a problemas de resistncia, toxicidade ou custo.

A iniciativa do seqenciamento tambm identificou genes especficos de cada parasita, cujas informaes poderiam ser teis nos esforos para desenvolvimento de frmacos e vacinas especficos para combater o parasita em questo.

Graas a esses estudos, os cientistas encontram-se agora muito mais prximos de poder desenvolver drogas eficientes contra essas doenas terrveis do que cinco anos atrs, afirmou Najib M. El-Sayed, autor da Science e pesquisador assistente do Institute for Genomic Research (Instituto de Pesquisa Genmica) em Rockville, Maryland, EUA.

Essas doenas so negligenciadas. Uma pessoa comum de um pas desenvolvido nunca ouviu falar dessas doenas, mas elas so devastadoras nos pases em desenvolvimento, declarou Matthew Berriman, autor da revista Science, bilogo snior e especialista em informtica do Wellcome Trust Sanger Institute (Instituto Wellcome Trust Sanger) em Hinxton, Reino Unido.

Embora compartilhem muitas das caractersticas gerais, esses trs patgenos so transmitidos por insetos diferentes, apresentam caractersticas de ciclo evolutivo exclusivas, infectam diferentes tecidos, livram-se do sistema imunolgico de forma muito especial e causam doenas diferentes no homem e nos demais organismos infectados. As trs doenas podem ocasionar uma afeco grave ou a morte se os pacientes no forem tratados a tempo.

A edio de 15 de julho de 2005 da Science inclui um trio de artigos de pesquisa, cada um deles dedicado a um dos parasitas, um artigo de pesquisa comparativo, dois relatrios de pesquisa relacionados, um artigo Viewpoint e um editorial.

O objetivo inicial dos trs projetos de genoma, os quais comearam de forma independente, foi o de decifrar o esquema gentico e aprender mais sobre a biologia de cada um desses trs parasitas. O estudo comparativo uma conseqncia valiosa desses projetos, que produziu resultados importantes, declarou El-Sayed.

O Trypanosoma brucei, transmitido pela conhecida mosca ts-ts, causa no homem a doena do sono, tambm chamada tripanossomase africana. A regio mais afetada pela doena a frica sub-Saara. A primeira fase da doena caracteriza-se por febre, cefalia, dor nas articulaes e prurido. Ao atravessar a barreira hematoenceflica e entrar no sistema nervoso central, os parasitos perturbam o ciclo do sono e outros processos neurolgicos.

O Trypanosoma cruzi causa a doena de Chagas. Os insetos hematfagos triatomneos, conhecidos tambm por diferentes nomes comuns, como barbeiros, abrigam-se em rachaduras ou fendas de moradias de baixa qualidade da Amrica Central e da Amrica do Sul, e transmitem os parasitas ao homem. Frequentemente as pessoas infectadas com T. cruzi sofrem de afeces cardacas, gastrintestinais ou neurolgicas aps muitos anos de infeco persistente, sem manifestao dos sintomas da doena.

As espcies do gnero Leishmania, transmitidas por flebtomos, pequenos mosquitos hematfagos, afetam o homem, provocando uma ampla gama de doenas na Amrica Central, na Amrica do Sul, no sul da Europa, na sia, no Oriente Mdio e na frica. Os pesquisadoras seqenciaram o genoma de Leishmania major, um dos parasitas do gnero Leishmania responsveis por uma dermatose cujas chagas deixam cicatrizes deformantes. O L. major serve de modelo para outras espcies de Leishmania, inclusive para aquelas que causam doenas internas ou viscerais, as quais resultam em febre, perda de peso, hipertrofia do bao e do fgado e, s vezes, morte.

Agora que j foram mapeados os genes desses parasitas, fica muito mais fcil de identificar os genes essenciais sobrevivncia desses organismos. Frequentemente, os genes responsveis pela codificao de protenas que participam nos processos biolgicos essenciais so utilizados como alvo para frmacos, comentou Peter Myler, autor da revista Science e professor adjunto de pesquisa da University of Washington (Universidade de Washington) e cientista do Seattle Biomedical Research Institute (Instituto de Pesquisa Biomdica Seattle), em Seattle, Washington, EUA.

Os pesquisadores descobriram muitos genes que codificam enzimas desconhecidas no homem. Por exemplo, o projeto do genoma mostrou dzias de genes comuns aos trs parasitas que, provavelmente, foram adquiridos de bactrias pelo processo de transferncia gnica horizontal. Os frmacos que atacam essas enzimas adquiridas poderiam vir a ser frmacos de alvos proveitosos porque menos provvel que afetem o hospedeiro.

Outro enfoque dado ao desenvolvimento de frmacos o de centralizar a ateno nas protenas que s existem em determinados parasitas. Muitos dos genes especficos da espcie esto localizados nas extremidades dos cromossomos e podem codificar protenas que o parasita precisa para sobreviver ou causar doenas no homem ou em outros animais hospedeiros. improvvel que os genes que participam dos processos de adaptao especficos do parasita sejam compartilhados com os seus hospedeiros humanos, tornando-os ainda mais atraentes como alvos para frmacos.

Devido sua distinta evoluo, os tripanossomos dispem de um excesso de alvos para frmacos potenciais e quase certo que o assunto sobre frmacos potenciais no seja o que mais prospera nas bibliotecas de qumica das companhias farmacuticas, declara George Cross, da Rockefeller University (Universidade Rockefeller), em Nova York, no editorial desta semana da revista Science.

A comparao dos trs genomas destaca, tambm, as diferentes capacidades metablicas dos parasitas, as quais refletem a diversidade de seus hbitos e correlacionam as diferenas dos hospedeiros com as dos vetores. O parasita T. brucei possui a menor capacidade metablica geral e o L. major, possui a maior. possvel que a capacidade dos flebtomos de se alimentarem com nctar permita ao L. major possuir um metabolismo de glicdios mais complexo.

Na esperana de desenvolver uma vacina contra o T. cruzi, Rick Tarleton * autor da Science e professor pesquisador da University of Georgia (Universidade da Gergia), em Athens, Gergia, EUA * e colegas descobriram quais eram as protenas presentes nos parasitas durante a sua infeco no homem.

Identificamos as protenas que poderiam ser boas candidatas para a vacina contra o T. cruzi e merecer estudos posteriores, explicou Tarleton.

Muitas informaes inesperadas surgiram dessa anlise do proteoma, especialmente quanto forma de o T. cruzi obter energia. Algumas dessas novas observaes so aplicveis concepo e ao planejamento do frmaco e da vacina e outras, neste momento, so apenas idias biolgicas interessantes, comentou Tarleton.

De acordo com Myler, o seqenciamento do genoma do parasita L. major um passo importante para entender as diferenas genticas que fazem com que outras espcies de Leishmania sejam mais perigosas informao crucial para poder desenvolver uma vacina eficiente contra uma ampla gama de espcies de Leishmania.

O desenvolvimento de vacinas contra o T. brucei parece ser menos promissor porque esse parasita consegue escapar muito facilmente do sistema imunolgico. A nova pesquisa permite observar com mais detalhes o vasto arsenal de genes inativos, os quais, acredita-se, ajudam o T. brucei no seu papel de artista de fuga.

Num artigo cientfico relacionado ao projeto genoma, David Prez-Morga e colegas indicaram o mecanismo pelo qual uma protena do soro humano chamado apoL-I destri o tripanossomo africano, o parasita responsvel pela doena do sono.

Num artigo Viewpoint, Carlos Morel e colegas destacaram a capacidade crescente de alguns pases em desenvolvimento de empreender inovaes na rea da sade a partir de recursos e energia prprios. Por exemplo, a maioria das cadeias curtas de DNA utilizadas para identificar os genes dos trs parasitas foi seqenciada em instituies da frica e da Amrica do Sul.

###

Uma lista completa dos autores de cada artigo est disponvel para jornalistas com acesso restrito revista Science, no site http://www.eurekalert.org/jrnls/sci/index.php

A lista dos fundadores encontra-se no final da seo Referncias e observaes, no final de cada manuscrito. Os jornalistas com acesso restrito revista Science podem ter acesso a esses manuscritos no site http://www.eurekalert.org/jrnls/sci/index.php

A American Association for the Advancement of Science (Associao Americana para o Progresso da Cincia * AAAS) a maior sociedade cientfica de mbito geral do mundo e editora da revista cientfica Science (www.sciencemag.org). Fundada em 1848, a AAAS atende a 262 sociedades e academias de cincia afiliadas e inclui 10 milhes de indivduos. A Science a revista cientfica de mbito geral com reviso crtica realizada pelos profissionais da rea de maior circulao do mundo, cujo nmero total estimado de leitores de um milho. A AAAS (www.aaas.org), uma organizao sem fins lucrativos, est aberta a todas as pessoas e cumpre a sua misso para o progresso da cincia e servio sociedade por meio de iniciativas de poltica cientfica, programas internacionais, educao cientfica e outras. Para obter as ltimas notcias sobre pesquisa, visite o EurekAlert!: www.eurekalert.org, o principal site da Internet sobre notcias cientficas, um servio da AAAS.

A AAAS a maior sociedade cientfica de mbito geral do mundo, dedicada ao Progresso da cincia e servio sociedade.