Public Release: 

Revelando a conservação na genética aplicada à conservação

Edição especial de periódico mostra aplicações da genética em conservação na América Latina

American Genetic Association

Esta comunicado está disponível em inglês.

Uma edição especial do Journal of Heredity recentemente publicada enfoca estudos de casos de genética aplicada à conservação na América Latina, da prisão de traficantes de psitacídeos (papagaios, araras e afins) à identificação de venda fraudulenta de peixes.

A disciplina de genética aplicada à conservação - o uso de metodologias genéticas aplicadas em conservação e restauração de biodiversidade - tem crescido nas últimas quatro décadas. No entanto, somente mais recentemente as metodologias moleculares têm sido usadas tanto para entender problemas de conservação quanto para resolvê-los. Metodologias genéticas têm sido utilizadas cada vez mais na América Latina, onde a biodiversidade tem sido bastante impactada pelo desenvolvimento econômico.

"A América Latina abriga uma biodiversidade acima do padrão mundial e também tem se desenvolvido como nunca, o que faz dessa região particularmente importante em ternos de conservação," disse a Dra. Kathryn M. Rodriguez-Clark, uma dos editores da edição especial. "Mas esses fatores também contribuem com o crescimento da comunidade científica que, com o devido apoio, pode auxiliar na conservação."

Esse apoio se iniciou uma década atrás, com o estabelecimento da La Red de Genética para la Conservaciόn (ReGeneC, ou em Português, Rede de Genética para a Conservação). A ReGeneC oferece um curso intensivo anual sobre metodologias genéticas focadas para a conservação para estudantes e pesquisadores da América do Sul. O esforço da ReGeneC culminou em um congresso em Caracas, Venezuela, em maio de 2014 e vários projetos apresentados no evento são descritos em artigos dessa edição especial do Journal of Heredity.

A edição especial inclui quinze artigos que descrevem o uso de metodologias genéticas para analisar problemas de conservação da biodiversidade da América Latina, de árvores a sapos e a micos.

Um artigo dessa edição descreve a estrutura populacional - no caso, sem diferenciação - de onças pintadas no Pantanal brasileiro, a maior área tropical alagada do mundo. Os pesquisadores analisaram o DNA de amostras de sangue para caracterizar a diversidade genética e a estrutura populacional de 52 onças pintadas amostradas em quatro localidades no Pantanal, um ecossistema relativamente preservado. Eles encontraram alto nível de diversidade genética entre os indivíduos, indicando a presença de uma única população, não fragmentada (e, portanto, saudável). Amostras coletadas em uma escala espacial similar na Floresta Atlântica, um bioma de 4.000 km2 na costa Atlântica do Brasil, mostraram um cenário diferente. Onças pintadas desse bioma foram recentemente separadas em múltiplas subpopulações devido à fragmentação do habitat e uma dessas subpopulações foi extinta.

"Os dados para o Pantanal servem como base de comparação para as onças pintadas da Floresta Atlântica, indicando que na escala espacial estudada, normalmente as onças pintadas apresentam conectividade," explicou o co-autor Dr. Eduardo Eizirik. "Esses resultados reforçam a necessidade de atuar diretamente na conservação dessa espécie, e descrevem a condição basal de estrutura populacional de uma população sem distúrbios."

Outro estudo da edição especial utilizou DNA barcoding em um caso de tentativa de tráfico ilegal de ovos de psitacídeos brasileiros. Um homem foi preso em um aeroporto brasileiro com 58 ovos de aves que ele alegava serem de codorna, mas a polícia suspeitava que não eram dessa espécie. Os embriões não eclodiram, o que impediu a identificação dos filhotes pela sua morfologia. Dois testes de DNA foram realizados, ambos revelaram que 57 dos ovos eram de espécies de psitacídeos e um era de uma coruja. Esse tipo de sequenciamento de DNA pode auxiliar investigações criminais e o planejamento de estratégias para impedir o tráfico ilegal de vida selvagem.

"Com esses dados a polícia poderia estabelecer um cenário mais preciso sobre casos de tráfico ilegal," disse a co-autora Dra. Cristina Miyaki. "Esse tipo de análise pode ser adotado pelas autoridades de proteção da vida selvagem para detectar espécies raras afetadas pelo tráfico, ou para controle de fronteira e monitoramento de dispersão de espécies invasoras," ela adicionou.

Um terceiro estudo teve como foco um problema duplo de fraude ao consumidor e de ameaça ao já ameaçado boto cor-de-rosa na Amazônia brasileira. Brasileiros geralmente não consomem o bagre localmente conhecido como 'piracatinga' (Calophysus macropterus) por considerá-lo repulsivo. A sua pesca geralmente é realizada usando como isca carne de boto cor-de-rosa ou de jacaré. No entanto, ao redor de 2008 um novo peixe chamado 'douradinha' apareceu nos mercados brasileiros. Esse peixe não se parecia com nenhuma espécie amazônica. Os pesquisadores suspeitaram que a 'douradinha' seria na verdade a 'piracatinga', somente com nome novo para confundir os consumidores e para escapar da fiscalização de práticas de pesca que envolvem a morte de botos e jacarés.

Um grupo de pesquisadores coletou amostras de 62 'douradinhas' de supermercados e peixarias, e usaram o sequenciamento de DNA para identificar a espécie de cada amostra. Mais de 60% das amostras vendidas como 'douradinha' eram 'piracatinga' e as demais eram de espécies de menor valor. O sequenciamento do conteúdo estomacal de duas amostras desses peixes confirmou a presença de boto cor-de-rosa, possivelmente utilizado como isca na pescaria. A pesca de 'piracatinga' foi proibida, em parte graças aos resultados desse estudo.

"Nosso trabalho foi fundamental para apoiar o movimento que baniu a 'douradinha'. Nós mostramos que botos cor-de-rosa estavam sendo usados como isca e, talvez o mais importante, que adotar nomes diferentes para a 'douradinha' não será efetivo para evitar a proibição de sua pesca - nossa metodologia ainda permitirá identificar o peixe sendo vendido," disse Dr. Antonio Solé-Cava, um dos co-autores do estudo.

Rodriguez-Clark enfatizou que vários dos estudos publicados na edição especial não utilizaram as metodologias mais avançadas disponíveis hoje, o que agrega mais valor à genialidade desses estudos. "Uma boa parte dos problemas de conservação não são tecnológicos, mas políticos, ou econômicos, ou culturais," ela afirmou.

"Esses cientistas estão trabalhando com problemas do mundo real. Às vezes o teste de real perspicácia é saber como utilizar a tecnologia básica necessária para resolver o problema e fazê-lo da maneira correta."

###

Sobre o American Genetic Association Journal of Heredity: Estabelecido em 1903, o Journal of Heredity, aborda a genética de organismos ao longo de um grande gama de disciplinas e táxons. Artigos incluem campos que têm avançado rapidamente, como a genética aplicada à conservação de espécies ameaçadas, estrutura populacional e filogeografia, evolução molecular e especiação, genética molecular de resistência a doenças em plantas e animais, genômica e bioinformática.

Disclaimer: AAAS and EurekAlert! are not responsible for the accuracy of news releases posted to EurekAlert! by contributing institutions or for the use of any information through the EurekAlert system.