Public Release: 

Pesquisa genética investiga caminhos para agregar valor à carne de Nelore

Cientistas brasileiros estudam como aprimorar a carne da subespécie que perfaz 80% do rebanho brasileiro, adequando-a aos padrões de qualidade do mercado internacional

Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo

IMAGE

IMAGE: This is an image of Luciana Correia de Almeida Regitano, researcher at the Brazilian Agricultural Research Corporation, Livestock Raising Division - Southeast, during FAPESP Week Nebraska-Texas view more 

Credit: Heitor Shimizu / Agência FAPESP

O Brasil tem o maior rebanho comercial de gado bovino no mundo, com mais de 225 milhões de cabeças, mas apenas 20% da produção brasileira é destinada à exportação. Isso faz com que a carne bovina seja apenas o décimo produto exportado pelo Brasil, depois da soja, minério de ferro, petróleo, açúcar de cana, automóveis, frango, celulose, farelo de soja e café.

Especialistas apontam que as exportações poderiam ser muito mais expressivas caso a carne bovina brasileira tivesse qualidade similar à dos produtos australianos, argentinos ou uruguaios. A diferença recai sobre o fato de que, no Brasil, mais de 80% do gado de corte é nelore, uma subespécie (Bos taurus indicus) originária da Índia que não produz carnes tão macias quanto raças como a angus (Bos taurus taurus), de origem europeia, que apresenta mais gordura intramuscular.

"O nelore tem menos peso e menor produtividade, carne menos macia e, consequentemente, preços mais baixos", disse Luciana Correia de Almeida Regitano, pesquisadora da Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária) e docente da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), onde leciona no programa de Pós-graduação em Genética Evolutiva e Biologia Molecular.

Regitano coordena o Projeto Temático "Bases moleculares da qualidade da carne em bovinos da raça Nelore", apoiado pela FAPESP. O projeto de pesquisa dá sequência a um anterior, que permitiu identificar regiões genômicas associadas a características de produção e de qualidade da carne.

Durante a FAPESP Week Nebraska-Texas - que ocorreu nos Estados Unidos entre 18 e 22 de setembro nas cidades de Lincoln e Lubbock - Regitano apresentou os resultados de projeto aprovado pela FAPESP, que coletou amostras de tecido de gado nelore e analisou, além das proteínas ali presentes, a sequência completa do RNA mensageiro e de todos os microRNAs presentes no tecido. "MicroRNAs são pequenas moléculas de RNA que modulam como os RNA mensageiros serão traduzidos em proteínas", explicou Regitano.

A pesquisa se iniciou com a criação e análise fenotípica de cerca de 800 animais, realizadas ao longo de três anos. Com o emprego de genotipagem de alta intensidade, o grupo analisou mais de 700 mil mutações pontuais espalhadas por todo o genoma para obter informação sobre a segregação dos segmentos cromossômicos.

"Conseguimos obter um conjunto de dados sobre 45 fenótipos diferentes e sequenciamos o RNA mensageiro e o microRNA de 200 amostras de músculo e 30 de fígado, além de proteínas em 65 amostras de músculo. Com apoio do CNPq [Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico], também conseguimos sequenciar o genoma completo, cada nucleotídeo do genoma, de 20 animais. Isso forneceu um conjunto de dados muito importante, no qual obtivemos para um mesmo animal camadas múltiplas de informação genômica", disse.

Regitano e seu grupo identificaram genes, caminhos metabólicos e processos biológicos envolvidos na diferenciação, proliferação, conversão de proteínas, hipertrofia e síntese de lipídeos relacionados à área de olho de lombo, uma medida correlacionada com a musculosidade do animal, e à espessura de gordura subcutânea, ambas características que impactam diretamente a qualidade da carcaça e produtividade de carne.

Os resultados do estudo - publicados em julho em artigo na BMC Genomics - destacam processos moleculares relacionados ao depósito de músculos e de gordura, que são características economicamente importantes para a produção de carne.

"Para ampliar sua importância no mercado, o Brasil precisa adequar a produção de carne aos padrões estabelecidos pelos importadores. Entre os quesitos de qualidade, a maciez, a quantidade e o tipo de gordura intramuscular podem influenciar as características sensoriais e o valor nutricional da carne bovina", destaca a pesquisadora.

Desdobramentos da pesquisa

"Entre os objetivos da pesquisa atual estão complementar as análises de associação genômica para incluir novos fenótipos, integrar as análises do genoma funcional (RNA, microRNA e proteínas), avaliar o significado de CNVs e capacitar recursos humanos nas áreas de bioinformática e genômica", explicou Regitano.

Variação no número de cópia (CNV) é definida como uma classe de alteração estrutural genômica que inclui amplificações e perdas de uma região específica, o que pode envolver um ou mais genes completos. "Estamos estudando como essas alterações influenciam a expressão de todos os genes expressos em músculo e os fenótipos avaliados", afirmou a pesquisadora.

Em outro artigo, publicado em 2016 na PLOS ONE, Regitano e colaboradores descreveram uma análise genômica ampla de CNVs obtidos de 723 bois. Os pesquisadores identificaram mais de 2,6 mil regiões que representam cerca de 6,5% do genoma completo dos animais.

Os resultados representaram o primeiro estudo compreensivo das variações no número de cópia do gado nelore, com a identificação de regiões em que alterações genéticas poderão se mostrar importantes para a criação de animais com carne mais macia, com melhor possibilidade de exportação e maior preço.

###

Sobre a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP)

A Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) é uma das principais agências públicas brasileiras de fomento à pesquisa. A FAPESP apoia a pesquisa científica e tecnológica por meio de Bolsas e Auxílios a Pesquisa que contemplam todas as áreas do conhecimento. Em 2016, a FAPESP desembolsou R$ 1,137 bilhão, custeando 24.685 projetos, dos quais 53% com vistas à aplicação de resultados, 39% para o avanço do conhecimento e 8% em apoio à infraestrutura de pesquisa. Saiba mais em: http://www.fapesp.br.

Disclaimer: AAAS and EurekAlert! are not responsible for the accuracy of news releases posted to EurekAlert! by contributing institutions or for the use of any information through the EurekAlert system.