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Tempo na UTI neonatal pode ter impacto no comportamento de bebês prematuros

Pesquisadores brasileiros mostram que o desenvolvimento emocional de prematuros deve ser acompanhado da mesma forma que o crescimento físico e o aspecto motor.

Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo

Um estudo realizado na Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FMRP-USP), apoiado pela FAPESP, indica que o tempo de internação na UTI neonatal é o fator que melhor explica alguns dos problemas de comportamento relacionados ao eixo de regulação emocional dos bebês - independentemente do nível de prematuridade e da presença de displasia pulmonar e retinopatia da prematuridade.

De acordo com a pesquisa, cujos resultados foram publicados na revista Early Human Development, as experiências estressantes relacionadas à dor neonatal podem causar danos ao desenvolvimento da criança tanto no início da vida como em etapas posteriores.

"Além disso, o ambiente da UTI neonatal tem outros fatores que podem prejudicar o desenvolvimento infantil, como o alto nível de ruído, a alta luminosidade, estímulos tácteis repetitivos e a separação materna", escreveram os pesquisadores.

O estudo examinou efeitos das características neonatais e sociodemográficas sobre o temperamento e o comportamento na infância em 100 bebês prematuros de 18 a 36 meses de idade com diferentes níveis de prematuridade. Todos os bebês participaram do programa de atendimento da UTI Neonatal do Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto da FMRP-USP, local onde foram aplicadas a escala de temperamento, que avalia o perfil de temperamento dessas crianças, e uma escala de indicadores e problemas de comportamento.

Preditores de padrões comportamentais na fase adulta

O estudo dos 100 bebês prematuros observou que aqueles que precisaram permanecer mais tempo nas UTIs demonstraram indicadores de problemas comportamentais.

Maria Beatriz Martins Linhares, professora associada da FMRP-USP e orientadora do estudo, explica que a fase inicial é uma espécie de janela de oportunidade para o desenvolvimento ao longo de toda a vida do indivíduo.

"A regulação fisiológica inicial e emocional é uma precursora para a série de processos de regulação de comportamento. Por isso, é importante lembrar que a partir de problemas de comportamento nessa idade é possível identificar indicadores de risco de problemas de comportamento na vida adulta. Até os seis anos de idade temos um potencial de prevenção desses problemas", disse.

O processo de autorregulação se completa aos cinco anos de idade. No entanto, com cerca de 18 meses, a regulação emocional é aprimorada, com a subsequente regulação de comportamento.

"O autocontrole emerge em torno de três ou quatro anos de idade com o desenvolvimento do sistema de atenção, que é relevante para controle voluntário, aumentando o potencial de regulação do comportamento", escreveram os autores.

Já o temperamento da criança geralmente muda ao longo de seu desenvolvimento. "Portanto, com o desenvolvimento típico da criança, os sistemas reativos iniciais tornam-se cada vez mais regulados na medida em que os sistemas de controle de inibição direcionados ao medo e controle de atenção amadurecem", disseram.

Linhares sublinha que o desenvolvimento cognitivo envolve não só o crescimento físico e as habilidades - nas áreas de linguagem, locomoção, motora -, mas também os aspectos afetivos, sociais e comportamentais. "Portanto, da mesma forma que o desenvolvimento motor precisa ser acompanhado, os indicadores do comportamento e traços do temperamento também devem ser."

Recomendações da pesquisa

De acordo com a Organização Mundial da Saúde, o Brasil é o 10º país com a maior taxa de nascimento prematuro.

Por mais desgastante que a UTI neonatal seja para o bebê - incluindo alguns procedimentos dolorosos para que ele ganhe peso e seja oxigenado apropriadamente (bebês prematuros não têm o pulmão plenamente formado) - é somente nesse ambiente e com o apoio da equipe multiprofissional especializada em recém-nascidos que ele pode sobreviver.

Para os pesquisadores, o achado confirma a necessidade de programas de cuidados do desenvolvimento na estrutura das UTIs neonatais, tanto para reduzir experiências estressantes e dolorosas como para melhorar as estratégias de proteção durante o desenvolvimento inicial do bebê.

Metodologia

As mães dos bebês que atenderam aos critérios de inclusão no estudo - entendimento de como funcionam os instrumentos usados para a avaliação do temperamento - participaram com entrevistas e respondendo a questionários.

Crianças com malformação, grau três de hemorragia intracraniana e com aparente problema cognitivo não participaram do estudo. Trinta e seis crianças participantes apresentaram displasia broncopulmonar e 63, retinopatia severa da prematuridade, as doenças mais comuns entre prematuros.

"Estudos anteriores compararam crianças nascidas pré-termo e a termo, visto que as pré-termo têm maior propensão a apresentar problemas de comportamento. No nosso estudo, avançamos no entendimento do desenvolvimento dos prematuros. O risco existe, mas é identificando esses riscos que podemos elaborar estratégias de proteção, prevenção e intervenção para melhorar o desenvolvimento dessas crianças", disse Rafaela Guilherme Monte Cassiano, psicóloga, doutoranda do Departamento de Neurociências e Ciências do Comportamento da FMRP-USP e uma das autoras do estudo.

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