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Estudo revela 'crescimento pós-traumático' relacionado com o confinamento devido à COVID-19

Universidade de Bath e da Universidade de Lisboa

University of Bath

Research News

Resultados de um novo estudo que recorreu a um inquérito online durante o pico do primeiro surto da pandemia sugere que o facto das pessoas terem sido forçadas a abrandar o ritmo de vida durante o período do confinamento também teve algum impacto positivo significativo em muitas pessoas e nas suas famílias.

Esta investigação, recentemente publicada no British Journal of Psychiatry, por uma equipa composta por investigadores da Universidade de Bath e da Universidade de Lisboa, analisou os resultados de um inquérito realizado a 385 progenitores/cuidadores de crianças dos 6 aos 16 anos no Reino Unido e em Portugal. Os participantes responderam a um questionário online entre 1 de maio de 2020 e 27 de junho de 2020.

Os participantes reportaram que experienciaram uma adversidade considerável devido à COVID-19. 70% encontravam-se a trabalhar exclusivamente de casa, quase metade reportou uma diminuição do rendimento e quase todas as crianças (93%) estavam condicionadas ao ensino remoto. Adicionalmente, um em cada 5 participantes identificou um familiar que suspeitava ter contraído ou que ficou infetado com COVID-19.

Contudo, apesar de todas estas condições, 88% dos participantes respondeu afirmativamente quando lhes foi perguntado "Acha que existiram alguns aspetos positivos que resultaram desta pandemia e das restrições de distanciamento social?"

As respostas enquadraram-se em quatro áreas chave, que os investigadores descreveram como exemplos de "crescimento pós-traumático", em que os indivíduos experienciaram efeitos positivos após os acontecimentos stressantes ou adversos.

  • 48% descreveu um crescimento nas relações familiares. Um participante explicou que o confinamento lhe trouxe "relações mais próximas" e um "maior conhecimento mútuo". Os progenitores também relataram como um aspeto positivo o passarem mais tempo juntos em família, um maior envolvimento na vida dos(as) filhos(as), um sentimento de maior proximidade, e simultaneamente um sentido de maior conexão com outros membros da família.
  • 22% descreveu um sentimento de maior apreciação da vida, que envolveu uma reapreciação dos valores e prioridades individuais e a oportunidade de "reconsiderar o que é realmente importante". Isto incluiu a apreciação e a gratidão pelas coisas simples da vida, com a oportunidade de uma "reconexão com pequenos prazeres" e menos consumismo e dependência de bens materiais. Também envolveu a adoção de estilos de vida mais saudáveis (22%) como consequência de um abrandar do ritmo quotidiano, resultando em menos stress e "numa oportunidade de apreciar uma maior tranquilidade".
  • 16% descreveu um crescimento espiritual, que implicou um maior envolvimento com questões fundamentais e existenciais. Isto incluiu uma maior valorização dos outros (em particular, trabalhadores da área da saúde e da linha da frente), um maior "sentido de comunidade" e o "reconhecimento da existência de desigualdades". Também incluiu os benefícios ambientais através da "menor utilização do carro" levando a uma menor poluição, que foi "melhor para o ambiente".
  • 11% descreveu o descobrir e abraçar novas possibilidades, manifestado através de comentários acerca de mudanças nas práticas profissionais, que envolveram mudanças "positivas relativamente ao teletrabalho" e o atingir de um "maior equilíbrio entre a vida profissional e familiar". Também se refletiu em oportunidades para aprender e desenvolver novas competências, em particular "competências relacionadas com novas tecnologias". Isto foi destacado pelos progenitores dada a crescente importância destas tecnologias para a atividade profissional, para a educação das crianças e também para a socialização. Alguns descreveram a importância de poderem ter a oportunidade de se envolverem mais na aprendizagem dos filhos, tendo um dos progenitores assinalado que "Sempre quis ter esta oportunidade do ensino a distância, mas não conseguia comportar os custos...esta foi uma experiência maravilhosa".

O primeiro autor do artigo, o Professor Paul Stallard, do Departamento de Saúde, da Universidade de Bath, explica: "Claro que a pandemia afetou as nossas vidas de forma significativa, com um efeito negativo expectável e substancial na nossa saúde mental e que sabemos que foi muito grave para vários indivíduos".

"Mas essa não é a história toda. Muitos participantes do nosso estudo enfatizaram o que tínhamos ouvido de forma mais pontual acerca de alguns efeitos positivos que as pessoas retiraram da possibilidade de viverem a sua vida de forma mais tranquila e num ritmo mais lento, devido ao confinamento".

"Estes são resultados importantes. Não só identificámos quais foram estas experiências positivas, mas também mostrámos que as pessoas que conseguiram identificar essas experiências positivas revelaram indicadores mais positivos de bem-estar por comparação às que não conseguiram identificar aspetos positivos. E fornece-nos algumas pistas acerca de como podemos reconstruir uma vida mais saudável e positiva ao abraçarmos alguns aspetos de um quotidiano de maior tranquilidade e apreciação de alguns pequenos prazeres e coisas mais simples que resultaram deste período."

A co-autora, Professora Ana Isabel Pereira, da Faculdade de Psicologia da Universidade de Lisboa, acrescenta: "Este estudo sugere algumas estratégias que podem ser um importante recurso para as famílias que, em vários países, foram expostas a medidas de confinamento mais rigorosas. É importante, especialmente nestes momentos de grande adversidade, encontrar algum significado e propósito para estas experiências".

"Em cada momento, podemos encontrar novas formas de construirmos relações mais fortes com as nossas crianças, parceiros(as) ou amigos(as); de escolher como melhor utilizar o nosso tempo durante o confinamento; e ajudar outros(as) elementos da comunidade que estão a experienciar uma maior adversidade ou que têm menos recursos s superarem este período."

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