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Grandes estoques de carbono em ecossistemas abertos são ignorados pelo financiamento climático

Políticas voltadas prioritariamente para florestas ameaçam ecossistemas abertos vitais para o armazenamento de carbono, a biodiversidade e a segurança hídrica.

Peer-Reviewed Publication

Cary Institute of Ecosystem Studies

image: 

Brazil's Cerrado. Policies biased toward forests threaten open ecosystems vital to carbon storage, biodiversity, and water security

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Credit: Amy Zanne

Ecossistemas abertos — paisagens não florestais, como campos, arbustais e savanas — podem armazenar grandes quantidades de carbono, ao mesmo tempo em que sustentam o abastecimento de água, a biodiversidade e outros serviços ecossistêmicos. No entanto, o potencial desses ecossistemas de servirem como soluções climáticas naturais continua sendo ignorado por políticas que privilegiam as florestas. É o que relata uma equipe de pesquisadores em um policy brief publicado hoje na revista *Plants, People, Planet*.

"Todos os padrões e métodos para mercados de carbono baseiam-se em áreas florestais; portanto, atualmente não há como incluir campos, savanas e outros ecossistemas abertos", afirmou a autora principal, Franciele Peixoto, analista ambiental do estado de Goiás, no Brasil. "Os ecossistemas abertos estão ameaçados e continuam sendo negligenciados por políticas climáticas que focam exclusivamente em florestas e árvores."

Peixoto e os coautores do artigo — incluindo Amy Zanne, ecóloga do Cary Institute of Ecosystem Studies — esperam que o documento aumente a conscientização sobre a importância desses ecossistemas e oriente a criação de políticas e programas que garantam sua inclusão em mecanismos de financiamento climático.

As áreas campestres são importantes

Os autores do artigo possuem anos de experiência em pesquisa e extensão no Cerrado brasileiro, a savana com maior biodiversidade do mundo, lar de mais de mil tipos diferentes de animais e mais de 10 mil espécies de plantas.

“Há tantas plantas interessantes lá, como o capim-brinco-de-princesa, que possui frutos que pendem como pingentes. Eles exibem uma bela cor dourada quando a luz do sol incide sobre eles”, disse Zanne. “O Cerrado é um lugar magnífico que fornece muitos serviços ecossistêmicos importantes.”

Um desses serviços, conforme demonstrado por pesquisas de Zanne e outros coautores do documento de diretrizes (*policy brief*), é o seu papel como um grande reservatório de carbono, com solos capazes de armazenar seis vezes mais carbono por hectare do que a vegetação da Floresta Amazônica. “No entanto”, acrescentou Zanne, “enquanto as árvores da Amazônia podem se regenerar em um período que varia de décadas a séculos, o carbono presente em alguns solos do Cerrado está lá há até 20.000 anos e não pode ser reposto tão rapidamente.”

Além disso, o Cerrado abriga as nascentes de dois terços dos principais cursos d'água do Brasil, incluindo o Rio Amazonas.

“As pessoas tendem a associar as florestas à importância para o abastecimento de água, mas, na verdade, ecossistemas abertos podem ser tão ou até mais importantes”, afirmou a coautora principal Natashi Pilon, ecóloga vegetal da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP). “Em ecossistemas abertos, as plantas usam menos água; assim, uma quantidade maior de água infiltra no solo e reabastece os aquíferos. É essa água que abastece o Cerrado e outros ecossistemas da região, como a Amazônia. É fundamental que a sociedade e os governos compreendam a importância do Cerrado para a segurança hídrica do Brasil.”

Esses serviços ecossistêmicos, muitas vezes subestimados, não são exclusivos do Cerrado. Outros ecossistemas  abertos ao redor do mundo oferecem benefícios semelhantes às pessoas e ao meio ambiente, embora continuem sendo amplamente negligenciados e pouco compreendidos.

Ecossistemas abertos – negligenciados e ameaçados

O novo artigo surgiu de um documento de diretrizes políticas (*policy brief*) que os autores apresentaram na COP30, a conferência do clima de 2025 realizada no Brasil. Eles elaboraram o documento porque “ninguém falava sobre ecossistemas abertos e a importância dessas áreas para o armazenamento de carbono”, disse Peixoto.

Apesar de sua capacidade de armazenar até 1.200 toneladas de carbono por hectare, ecossistemas como o Cerrado não estão incluídos em mecanismos de financiamento climático — como o REDD+, uma iniciativa das Nações Unidas que paga a nações em desenvolvimento para proteger e manejar de forma sustentável suas florestas visando reduzir emissões de carbono — nem em outros programas de crédito de carbono. Esses instrumentos foram desenvolvidos especificamente para florestas, apontam os autores; portanto, ecossistemas de vegetação campestre não se enquadram em suas estruturas de medição e certificação.

“Sem esse reconhecimento, projetos em ecossistemas abertos não conseguem emitir créditos nem acessar recursos de fundos climáticos”, escrevem os autores.

Ecossistemas abertos têm sido subvalorizados desde a época colonial, explicou Pilon. “Quando os europeus mapeavam as terras no Brasil, as florestas eram consideradas ‘boas’ porque forneciam madeira; já no Cerrado, era difícil produzir alimentos sem o conhecimento indígena ou tecnologia moderna, ocorriam incêndios e as árvores eram menores e retorcidas — por isso, eles o consideravam uma terra improdutiva.”

Essa visão histórica reflete-se hoje na relativa escassez de dados científicos sobre ecossistemas abertos e na falta de políticas públicas e programas voltados à conservação dessas áreas. Em vez disso, ecossistemas abertos são frequentemente alvo de projetos de desenvolvimento e programas de plantio de árvores que perturbariam ou destruiriam esses ecossistemas naturais e seus estoques de carbono.

No Brasil, “o Cerrado é considerado o bioma que pode ser sacrificado para proteger a Amazônia”, disse Zanne. “Assim, em vez de derrubar mais floresta tropical, o agronegócio está convertendo vastas áreas de Cerrado para o cultivo de soja destinada à alimentação do gado — sem perceber que acabarão perdendo a Amazônia ao provocar o ressecamento desses biomas.”

Mais de 46% da cobertura vegetal original do Cerrado já foi suprimida para dar lugar a lavouras e pastagens, segundo um estudo publicado em 2022.

Medidas para proteger ecossistemas abertos

O primeiro passo para proteger ecossistemas abertos, escrevem os autores, é ajudar as pessoas a reconhecer os benefícios que eles proporcionam à sociedade e ao meio ambiente. Por exemplo, eles defendem maiores investimentos em educação ambiental e comunicação pública para conscientizar sobre o papel do Cerrado na garantia da segurança climática, da disponibilidade de água e do bem-estar das pessoas em todo o Brasil.

Em nível internacional, as metodologias de crédito de carbono precisam ser revistas para incluir parâmetros de medição e contabilização do armazenamento de carbono no subsolo — particularmente em solos profundos e sistemas radiculares —, em vez de considerar apenas troncos e galhos de árvores.

Os autores apelam aos governos do Brasil a criar e fortalecer legislações federais e estaduais, a aumentar o financiamento para o manejo, monitoramento, licenciamento e restauração de ecossistemas abertos, e a elaborar uma estratégia que inclua esses ecossistemas nas metas nacionais de clima e biodiversidade e nos sistemas de quantificação de carbono.

“Também é essencial”, diz Pilon, “proteger essas áreas de projetos de plantio de árvores que, embora bem-intencionados, ameaçam o abastecimento de água, a biodiversidade e os estoques de carbono da região.”

Ganhando força

Os autores do artigo trabalham para compreender o funcionamento do Cerrado, a fim de embasar práticas de restauração e conservação. Por meio de um programa governamental chamado "Campos do Cerrado", Peixoto, Pilon e seus colegas também buscam conscientizar formuladores de políticas públicas e a sociedade civil sobre a importância dos ecossistemas abertos e a necessidade de protegê-los. Como resultado desses esforços, o interesse público pelo Cerrado vem crescendo.

A equipe apresentou suas ideias na COP16 (a conferência global sobre biodiversidade, na Colômbia) e na COP30 (a conferência global sobre o clima, no Brasil), obtendo resultados promissores. Após a bem-sucedida inclusão dos ecossistemas abertos na agenda da COP16 (graças aos esforços dos autores e de uma ampla rede de colaboradores em todo o Brasil), o Ministério do Meio Ambiente brasileiro criou um grupo de trabalho para desenvolver uma estratégia nacional de conservação e restauração desses ecossistemas. A estratégia também contemplará a incorporação desses ecossistemas às políticas climáticas, reconhecendo seu papel fundamental na mitigação e na adaptação às mudanças climáticas, bem como na conservação da biodiversidade.

"Transformar um sistema global que não foi concebido para levar em conta os ecossistemas abertos não acontecerá da noite para o dia", afirmou Peixoto. "Hoje, há um amplo reconhecimento dessa limitação, mas o reconhecimento por si só não basta. O que importa agora é passar da conscientização para a ação, e essas iniciativas representam um primeiro passo importante — não apenas para o Cerrado, mas para ecossistemas abertos em todo o mundo."

Autores

Franciele Parreira Peixoto – Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável de Goiás (SEMAD)

Gerhard Ernst Overbeck – Universidade Federal do Rio Grande do Sul

Fernando A.O. Silveira – Universidade Federal de Minas Gerais

Newton La Scala Jr. – Universidade Estadual Paulista (UNESP)

Alexandre Bonesso Sampaio – Centro Nacional de Pesquisa e Conservação em Biodiversidade e Restauração Ecológica

Giselda Durigan – Instituto de Pesquisas Ambientais

Amy E. Zanne – Cary Institute of Ecosystem Studies

Larissa Verona – Cary Institute of Ecosystem Studies Universidade Estadual de Campinas

Valério D. Pillar - Universidade Federal do Rio Grande do Sul

Ellane Van Wyk - Coalizão de Finanças Sustentáveis

Rafael S. Oliveira - Universidade Estadual de Campinas

Alessandra Bassani - Universidade Estadual de Campinas

Camila Carvalho de Carvalho - Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá

Natashi Pilon - Universidade Estadual de Campinas

Cary Institute of Ecosystem Studies is an independent nonprofit center for environmental research. Since 1983, our scientists have been investigating the complex interactions that govern the natural world and the impacts of climate change on these systems. Our findings lead to more effective resource management, policy actions, and environmental literacy. Staff are global experts in the ecology of: forests, soils, freshwater, disease, and cities. 

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